Entre tantas passagens lindas e tocantes narradas pela Bíblia Sagrada, uma delas, em particular, me toca profundamente. No exato momento da dolorosa morte de Cristo a natureza se dobrou ao testemunhar o último suspiro de seu Criador. O evangelho segundo Mateus e Lucas, narra com detalhes a escuridão que tomou o céu em plena tarde e o forte terremoto sentido por aqueles que acompanhavam a crucificação (Lc.23:44 e Mt.27:51). No entanto, longe dali, no templo, mais precisamente entre o Santo e o Santíssimo Lugar, um evento sobrenatural marcava o início de uma nova fase. O véu que, simbolicamente, separava o homem de Deus foi rasgado de cima abaixo.

Naquele momento começava uma nova era. Por meio do sangue inocente do filho de Deus, o homem caído novamente era ligado ao Criador. A cortina que nos separava foi literalmente rasgada e, finalmente, podíamos de novo nos relacionar com Deus, sem a necessidade de um sacerdote intermediador.

A oração é algo que nos liga ao Altíssimo. Por meio de nossas preces podemos estabelecer diálogo com Ele. Isso mesmo! Chega a ser complexo entender que o Criador disso tudo esteja pronto a nos ouvir e, mais que isso, a nos responder também. Quando entendemos que a oração é uma via de mão dupla chegamos a um nível profundo de compreensão de que a orar é se relacionar com Deus.

Desde o Éden, o Criador sempre manifestou desejo em se relacionar com sua criatura, mas infelizmente o pecado criou uma barreira (Is.59:2), um véu entre nós. Mesmo assim o Senhor insistiu e ao longo das narrativas bíblicas vemos o Pai se relacionando com o homem. Basta se lembrar de Noé, Abraão, Jacó, Moisés, os profetas, e por aí vai. No entanto, era Ele quem decidia com quem conversava. O sangue remido no Calvário mudou isso. Deu a todos nós a possibilidade de falarmos com Deus e de ouvir Sua voz. Mas o Pai quer mais que um diálogo formal; o Senhor quer intimidade.

É sabido que todo relacionamento saudável requer intimidade entre os pares. Confidência, fidelidade, amor; são atributos conseguidos somente por meio de uma relação íntima. Creio que a oração é a forma mais eficaz de se alcançar e de se manter esse nível de profundidade com Deus. Aí chegamos a mesma pergunta dos discípulos (Lc.11:1): então como orar?

Ninguém melhor que o Filho para nos ensinar como falar com o Pai. Além da oração do “Pai Nosso”, Jesus enfatiza a maneira de se fazer isso. O Mestre nos incentiva a entrarmos no nosso quarto e fecharmos a porta para falarmos com Deus (Mt. 6:6). Daí podemos nos perguntar: a quem damos intimidade para entrar no nosso quarto? Obviamente esse espaço é o local mais íntimo que podemos ter. É nele onde nos trocamos, dormimos, choramos, enfim, é evidente que o Senhor não quer ser apenas aquela visita que só entra na sala e na cozinha. Ele quer o quarto do nosso coração. Não é lindo?

Além de estar no quarto, Jesus vai além e também nos ensina a fecharmos a porta. A verdadeira intimidade só pode acontecer quando a porta estiver fechada.

Quando criança, nos cultos que participava, sempre me encucava com alguns costumes dos irmãos. Me questionava sobre o porquê que para falar com Deus tínhamos que fechar os olhos. A reverência do ajoelhar-se, prostrar-se na presença do Altíssimo me era mais entendível do que o fechar os olhos. Para quê preciso fechar meus olhos se Deus escuta com os ouvidos? Não seria falta de respeito conversar com alguém tão importante de olhos fechados? Assim eu questionava sobre a luz da ética ensinada dentro de casa. Depois de crescido me veio o entendimento.

Aprendi que nossos olhos são as janelas da nossa alma e por ele captamos tudo ao nosso redor (Lc.11:34). Não à toa, professores insistem que aqueles alunos mais dispersos se sentem logo na primeira cadeira onde o campo de visão estaria limitado. Naquela posição a atenção é naturalmente mais direcionada à lousa. Dessa forma também o fechar os olhos nos transporta aos céus.

Não é exagero isso. Tente orar com os olhos abertos. Certamente um mosquito, por menor que seja, vai lhe tirar a atenção. Enxergamos muito além do físico, também vemos por meio do simbólico. Nosso cérebro o tempo todo vai querer apurar, entender, questionar e julgar o que está à frente dos nossos olhos (Fp.4:8). Naturalmente nossa carne tenderá a pensamentos malignos apreendidos pelo que enxergamos. Isso é ainda mais forte naquele momento em que tentamos nos ligar a Deus por meio da oração.

Fechar nossos olhos significa abrirmos mão do cenário terreno para mergulharmos na mais profunda dimensão espiritual. Sem a visão terrena ficamos por conta de direcionar nossa mente ao Pai. “Olhar” para o céu. Aí o segundo desafio é aprender a meditar.

Culturalmente associamos meditação a religiões asiáticas, e de certa forma até com algo profano. Pelo contrário, o termo aparece várias vezes nas sagradas escrituras (Js.1:8). Em seu significado etimológico, a palavra meditar deriva do latim meditare, “voltar-se ao centro” ou “trazer para o centro”. De forma mais geral é quando direcionamos, forçamos todos os nossos pensamentos para um só lugar. Tarefa muito difícil, concorda?

No entanto, é impossível alcançar intimidade com Deus em oração se nossa mente não estiver voltada totalmente a Ele. Confesso que em minhas experiências de orações já dormi, me perdi, me peguei falando algo que nada tinha a ver com minha intenção. Imagino que isso seja muito comum entre nós. De outro lado, já me vi numa conversa tão profunda com Deus a ponto de me sentir batendo papo com Ele e esquecer de onde eu estava, a ponto de ficar quase uma hora em um estado de profunda meditação. Quando terminava, custava assimilar onde eu estava e há quanto tempo orava. É esse o tipo de oração que eu almejo como hábito.

Desejo que orar para nós seja algo tão natural como comer e andar. Para alcançar esse nível vale o exercício de colocar em prática as lições que o Filho de Deus nos deixou. Por mais que falemos do assunto, a oração, o diálogo com nosso Pai é uma experiência única incapaz de ser descrita de forma igual para todo mundo. Eu te convido a tentar, uma, duas, cem vezes se preciso for. Porque o preço pago para que o véu fosse rasgado foi muito caro. Foi preço de cruz!


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Bruno Mendes é jornalista formado pela PUC – Goiás e está a frente do trabalho com Jovens na ICJBV.

Oração. Por que orar de olhos fechados? Por: Bruno Mendes

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