“Um morreu por todos, logo todos morreram (nEle)” [2 Co 5:14].

Como lemos em 2 Coríntios 5:12-19, não podemos deixar de ver quão profundamente a cruz é o centro da vida do apóstolo. Estamos familiarizados com o verso 14, onde se lê: “Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram [nEle]; e Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si”. Estas palavras tomadas sozinhas, indubitavelmente ensinam a identificação do crente com Cristo em Sua morte e Seu ressurgimento em uma vida onde vive total e inteiramente em Cristo, e não em si.

Mas, se as palavras são lidas em conexão com os versos anteriores e consecutivos ao verso 14, o véu é erguido para um caminho extraordinário mostrando que este verso é mesmo o centro de uma passagem admirável, revelando as circunstâncias e condições que produziram em Paulo sua relação com a cruz.

Deixe-me ilustrar a situação por trás das palavras do apóstolo. Seus críticos em Corinto estavam acusando-o de auto-exaltação e de estar fora de si por vaidade, mas ele replica: “Porque, se enlouquecemos, é para Deus; se conservamos o juízo, é para vós” (verso 13).

“Pois o amor de Cristo nos constrange”, e então aponta para a cruz como a razão pela qual ele poderia dizer isto sobre si mesmo. Ele sabia que não era auto-exaltação ou vaidade manifestada em seu zelo e intensa renúncia a Deus por causa de sua identidade com Cristo na morte. O ego já não era mais o centro dominante do seu ser.

Quão expressivas são as palavras de Paulo no verso 16. “Nós a ninguém conhecemos” (aqui a pessoa ‘nós’ é enfática) “Nós a ninguém conhecemos segundo a carne”, como vocês me conheceram. Vocês me chamam de insensato e louco em meu zelo, mas esta é uma visão carnal. Sei que morri com Cristo e que não vivo mais por mim mesmo.

É o amor de Cristo que habita em mim que me constrange, “assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é, as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo. E tudo isto provém de Deus”. Vocês me chamam de louco, dizem isso e aquilo de mim, mas sei que não sou “eu” quem me domina, pois vi o “eu” sobre a cruz. Julguei o verdadeiro significado da morte de Cristo, vejo que se um morreu por todos, então todos morreram. Assim, aqueles que estão em Cristo se tornam novas criaturas. Seu centro mudou. Eles têm um novo centro: Cristo. Tudo é novo e tudo vem de Deus como a fonte central de suas vidas. Deste modo é que o amor de Cristo me constrange, explodindo dentro de mim como uma torrente da fonte central da minha vida, e não o mero zelo e entusiasmo que vocês julgam ser o poder que opera em mim.

Isto está de acordo com a forma de Deus revelar o significado da cruz a Seus filhos. O conhecimento íntimo da cruz jamais pode ser compreendido pelo intelecto. A morte de Cristo no Calvário foi algo tão impressionante e terrivelmente real que somente aqueles que entram experimentalmente naquela morte podem receber igualmente um vislumbre dela.

A mensagem da cruz jamais pode ser meramente uma doutrina, pois foi algo mais do que isso para Cristo, e, como vemos na vida do apóstolo da cruz, para Paulo. A forma de Deus revelar a verdade é produzi-la na experiência e vida do homem antes que ela possa penetrar o intelecto. Devemos ser conduzidos ao mesmo ponto experimental do qual ele falou caso queiramos entender sua mensagem.

Uma Mudança de Centro.
Agora é sobre a mudança de centro, que Paulo descreve nesta passagem em Coríntios, a qual desejo tratar por um momento. Temos falado da cruz e da morte para o pecado, como mostrado em Romanos 6, sobre a cruz e a morte para o mundo, como em Gálatas 6, sobre a morte e a vida do grão de trigo, descrito em João 12:24.

Podemos receber luz sobre todos estes aspectos da cruz e experimentar uma medida de libertação pela verdade, mas não conhecer profundamente, no recôndito do nosso ser, esta mudança do ‘eu’ central do qual o apóstolo fala em 2 Coríntios 5:14. Existe algo que precisa ser tratado mais profundamente do que o pecado e o mundo; é o ego, o ‘eu’. A cruz penetrou ali? “Agora” disse Paulo, “não conheço ninguém segundo a carne”.

Quando o ‘eu’ central é tratado, a visão é inteiramente mudada. Inclusive a visão de Cristo pode ser mundana, do ponto de vista egocêntrico ao invés do ponto de vista da “nova natureza” que vem “de Deus”. Este é o fundamento básico da vida interior, o qual devemos começar a examinar à luz da cruz. De nenhuma outra forma o Senhor pode liberar em nós os rios de águas vivas, nem podemos ser conduzidos para o lugar de autoridade sobre os poderes das trevas, pois o ego está corrompido em sua fonte pela natureza caída do primeiro Adão.

Paulo nos anuncia a mudança de centro que ele tão intensamente compreendeu através da luz que obteve por meio da cruz. Três vezes ele afirma essa “nova criação” básica como sua experiência. “Não vivo mais eu” (Gl 2:20). “Mando, não eu, mas o Senhor” (1 Co 7:10). “Trabalhei muito… todavia não eu” (1 Co 15:10). Na Igreja em Coríntios (1 Co 1:12) temos um completo contraste disso. “Cada um de vós diz: ‘eu’… ‘eu’ sou de Paulo… ‘eu’ sou de Apolo…”

Mas Paulo não disse ‘eu’ no sentido de ‘eu’ sendo a fonte originadora e movedora das suas palavras e ações. ‘Eu’, sim, mas é um novo ‘eu’, uma nova personalidade. Não ‘Cristo e eu’, com o ‘eu’ no centro, e Cristo, por assim dizer, pelo Seu Espírito ao lado. Mas uma ‘criação’ pelo Espírito Santo de um novo ‘eu’, porque o velho ‘eu’ foi cravado na cruz com Cristo (Gl 2:20).
Isso é algo totalmente além do nosso poder de compreender mentalmente.

A obra da ‘nova criação’ precisa ser feita pelo Criador assim como na primeira criação. Não vamos ser auto-enganados e imaginar que “não eu, mas Cristo” é somente um lema, uma escolha, um propósito. É muito, muito mais. O Espírito Santo fará Sua parte se enxergarmos nossa necessidade e nos dispormos para a Sua obra mais profunda da graça em nós.
Aqui precisamos retornar á passagem mais vital sobre o significado da cruz que se encontra no Novo Testamento.

Ela é parte da grande epístola doutrinária aos Romanos, sobre a qual toda a estrutura da vida cristã pode ser edificada.

Passando pela primeira revelação necessária da morte de Cristo como propiciação pelo pecado, para Deus (Rm 3:25), e então como substituto pelo pecador (Rm 5:6-10), vamos ao verdadeiro fundamento da morte do pecador na morte de seu substituto, em Romanos 6. É o fato espiritual que se apresenta na base das palavras de Paulo em Gálatas 2:20. “Estou crucificado com Cristo e não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim”.

Familiarizados como estamos com as palavras e até certo ponto com as verdades de Romanos 6, vamos tomar apenas uma palavra no capítulo e através desta palavra vejamos quão profundo e real o fato central da crucificação do ‘eu’ pretende ser. É a palavra ‘MORTE’ em Romanos 6:2. A Edição Revisada e Corrigida a traduz ‘mortos’, já que apresenta o tempo aoristo que em si é mais fortemente abrangente.

A palavra Grega é ‘apothnesko’. O Léxico Grego diz que esta palavra tem um prefixo “que torna o verbo mais vívido e intenso, e representa a ação do verbo simples como consumado e terminado”. Ela se apresenta como o significado da palavra “extinguir, expirar, tornar-se completamente morto”.

A mesma palavra é usada novamente no verso 7. “Aquele que está morto está justificado do pecado”, e no verso 8, “Se já morremos com Cristo”. Ora é óbvio que se Paulo usou tal linguagem sobre a identificação do crente com Cristo em Sua morte ele quis dizer algo mais do que uma imagem ou figura de retórica.

Sabemos de outras partes desta epístola quão magnificamente ele irromperia com explosões de verdades jorrando do seu espírito e mente como com a própria luz do céu. E foram verdades sempre reveladas pelo Espírito em reposta à necessidade. Tratando com a questão da graça fluindo além da mais funda profundeza da insurreição do pecado na raça humana, ali irrompe do seu espírito a mais maravilhosa revelação da cruz.

Alguns judeus argumentaram que se o pecado do homem foi trazido à tona como uma exibição gloriosa da graça de Deus então quanto mais os homens pecassem, mais Deus seria glorificado. Mas, diz o apóstolo, a cruz não trata somente com o pecado, mas com o pecador. Então ele irrompe, em vívida e intensa linguagem: “Nós que estamos MORTOS para o pecado, como viveremos ainda nele?”

Ou seja, na morte de Cristo nós MORREMOS para o pecado, como um ato consumado e terminado, e aquele que está ‘morto’ está livre da escravidão do pecado. (Rm 6:7).

A Obra Externa Experimental
Tendo já lançado o fundamento da necessidade de um novo centro, uma nova criação, olhemos para outras passagens que mostram que com base no termos ‘morrido’ para o pecado, (Rm 6:2), o apóstolo usa outras palavras para descrever a obra externa experimental da cruz.

Em Romanos 8:13 onde ele escreve: “Se pelo espírito mortificardes as obras do corpo”, (a margem da versão King James diz, “fazer morrer os feitos do corpo”), a palavra Grega usada é ‘thanatoo’. Sobre ela o Léxico Grego diz, “tirar o princípio vital, a inércia daquilo cuja vida foi tirada”. Aqui está a obra do Espírito Santo com a qual o crente tem que cooperar.

Na fé baseada na ‘morte’ (Rm 6:2) o crente deve agora ‘fazer morrer’ as obras do corpo; render à cruz toda a atividade da natureza caída e quando ele assim o faz aquela atividade cessará, pois a cruz trata com a vida caída que energiza as obras incitadas por ela.

Há uma outra palavra usada por Paulo na mesma conexão. Ela é ‘nekroo’ (Cl 3:5), em referência aos membros do corpo. A Versão Atualizada diz ‘mortificar’; a margem da Versão Revisada diz ‘fazer morrer’; a nota do Léxico é “fazer um corpo morto ou um cadáver, o aspecto do ser com respeito ao cadáver e a obra pela qual ele se tornou assim”.

Isto significa que os membros do corpo devem ser conduzidos em todas as suas ações em harmonia com o fato central da ‘morte com Cristo’. Os membros devem ser mortificados naquilo em que não são mais energizados pela vida caída de Adão, mas trazidos sob o poder da cruz. Eles assim são feitos ‘mortos para o pecado’ e vivos para Deus a Seu serviço (Rm 6:13).

A Perpétua Vida de Morte
Estas palavras ‘apothnesko’ (morrer para o pecado), ‘thanatoo’ (trazer os feitos do corpo sob o poder daquela morte) e ‘nekroo’ (privar os membros do corpo da atividade da velha vida), não cobrem todo o fundamento. 2 Coríntios 4:10-11 fornece uma outra palavra, mostrando que não existirá nenhum ponto em nossa vida na terra em que a necessidade de aplicação da cruz cessará. O verso 10 diz na Versão Atualizada: “carregando sempre em nosso corpo a morte de Jesus”.

A palavra morte é ‘nekrosis’, um ‘fazer morrer’. O Léxico diz que ela é “a expressão da ação ser incompleta e em progresso”. No verso 11, a palavra ‘morte’ é ‘thanatos’. A obra profunda de Deus no centro é apenas o começo de tudo o que deve ser forjado em nós pelo Espírito Santo.

Quão claramente as palavras Gregas usadas apresentam a posição básica de termos morrido na morte de Cristo e o progressivo fazer morrer perpetuamente que deve necessariamente ser feito dia após dia. “No meu corpo carrego continuamente o morrer de Jesus”, escreve Paulo, mas novamente a exatidão verbal do Grego é mostrada no uso da palavra ‘thanatos’ (morte) no verso 11. O Léxico diz que isto descreve a cessação de qualquer tipo de vida.

O ‘fazer morrer’ do verso 10 ao qual o crente é sempre conduzido pelo Espírito Santo, tem o propósito de trazer a cessação da atividade da velha natureza, e isso não é uma vez por todas, mas continuamente. Assim, isso significa que do centro para a periferia a identificação do crente com Cristo em Sua morte é uma necessidade para o crescimento da nova vida no centro em plena maturidade.

Mrs. Jessie Penn-Lewis

Extraído da Revista O Vencedor
Do Livro “A Centralidade da Cruz”  – The Centrality of the Cross

5519362ba20dd_jessie_penn_lewisJessie Penn-Lewis nasceu em 1851, filha de Samuel Jones, pastor da Igreja Metodista Calvinista em Neath (Glamorganshire, Gales). Foi convertida ao Evangelho pelo ministério de Evan H. Hopkins em 1º de janeiro de 1882, com 21 anos. Dele escutou o caminho da vitória por meio da cruz de Cristo. A cruz como identificação do crente com Cristo no poder de Sua morte e a glória de Sua ressurreição: este foi o tema principal dos livros e discursos da Sra. Penn-Lewis.

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